Conhecimento é transcendente

 

Leon Tolstoi já dizia que o caminho não se torna errado porque o bêbado cambaleia errante. Outra paráfrase indica que as placas não garantem o destino do viajante.

Ultimamente tenho escrito posts que chamam a atenção para uma alta performance pessoal. Não sou consultor da área e ainda há muito do que penso e escrevo que não tem feito parte do meu modo de ser no momento. Falar sobre esses assuntos é manusear uma faca onde o cabo também tem gume.

Certa vez, um viajante a caminhar por um local ermo e escuro começou a ouvir uma voz distante. Passo a passo, aos poucos a voz ia ficando mais audível e fácil de entender. Alguém gritava: “Buraco! Cuidado!” O andarilho enfim chegou perto de onde o homem gritava.

– Como você foi parar aí?

– Não conseguia ver o caminho direito. Acabei caindo.

– Tem muito tempo que você está aí?

– Tem. Não consigo sair. Estou exausto! Estou cansado de tanto gritar! Mas quero evitar que outra pessoa caia. Que bom que você me ouviu! Agora pode me ajudar ou conseguir ajuda!

O viajante hesitou. Achava aquela voz familiar. Arriscou:

– Daniel? É você?

– Sim, sou eu! Antônio? Cuidado! Você está chegando muito perto! É muito perigoso e frio aqui!

Antônio se enfurece.

– Quem é você pra me dizer isso justo agora? Olha onde você está! Sempre querendo dar uma de esperto!

– Antônio, só quero que você não caia também!

– Pois é! Até dentro do buraco querendo me dar lição! Você não muda mesmo!

– Antônio, considere então onde você está! Esqueça quem está dizendo! Evite meus erros…

Tarde demais. Antônio pulou dentro do buraco. Achou um ultraje ser aconselhado por alguém naquela condição. Ainda mais um conhecido. Preferiu ir discutir lá embaixo. Acabou morrendo sozinho ao lado do corpo de Daniel que morrera primeiro estafado e estupefato.

Isso acontece com freqüência. Avaliamos sentimentalmente o que ouvimos. Esquecemos que se o interlocutor não vive e pratica o que fala, isso não necessariamente invalida suas palavras. Pode até atestar.

O conhecimento é transcendente e imutável. Nós, nem um nem outro. Por isso, só o sábio pode ser repreendido. O tolo sempre pula no buraco. Não avalia as coisas racionalmente. Valoriza mais as emoções e as experiências pessoais. O sábio, se não conseguir evitar a queda em um buraco, se não conseguir sair tenta evitar que outros caiam. Aumenta assim suas chances de socorro oportuno. Pratica assim o resgate antecipado de alguns menos experientes ou desatentos pelo caminho.

Não quero cair. Quero de igual forma sair de onde não pude evitar o acidente. Às vezes sou Antônio, outras Daniel. Vou caminhando e aprendendo. Vale muito saber que a música é incomparavelmente superior ao instrumento.

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Diferentes escolas, diferentes conhecimentos

Rubem Alves

Image via Wikipedia

Rubem Alves. Ele é quem disse que em Portugal – vejam só – existe uma escola onde os professores não dão respostas. Fazem perguntas. Ele mesmo afirma que sempre sonhou com esse tipo de ensino, onde o professor instiga o aluno a descobrir o mundo ideal (das idéias). Aqui e, por muitos outros lugares, as coisas são bem diferentes. O professor mastiga um tanto de coisas, leva um tempo enorme falando, ditando, escrevendo… Tempo que o aluno não está pensando, não está produzindo conhecimento.

A culpa, como sempre é do sistema. O professor aprendeu assim. Então passa adiante o método. Depois, ambos, professor e aluno se dão conta do tempo perdido. O professor cansado de tanto falar, pedir silêncio, pedir, por favor, alunos, ouçam, copiem, fiquem calados. E o aluno se cansa de ouvir, de copiar, de tentar ouvir seu tutor em meio ao desrespeito impressionante de uma sala de aula em que alguns não estão aptos a participar. Antes deveriam estar em estábulos, onde dizem, quando um burro fala, os outros baixam a orelha.

Já tive a experiência de ao invés de explicar alguma coisa a alguém, julgando que eu possa faze-lo, resolvi perguntar ao próprio questionador. Muitas vezes ele sabia a resposta. Só estava inseguro. Muitas vezes ele sabia mais do que eu estava preste a explicar. Assim, eu aprendia mais do que ele. O fato é que ao tentar explicar, sua mente fazia certos exercícios que eu não sei explicar quais são, mas que seguramente traziam efeitos bem maiores na produção do conhecimento. Tentar explicar, argumentar, ainda que errado, (se for na aula, que grande oportunidade para aprender!) quase sempre é muito mais proveitoso do que a atitude passiva de ouvir as respostas.

Conheci uma menina que vivia a estudar. Ainda assim, suas notas não eram proporcionais ao seu esforço. Dei uma olhada em seu material e vi dezenas, centenas de perguntas e respostas sobre muitos temas. As repostas eram coerentes, corretas. Como pois, estudando o tempo que ele estudava, parecia que simplesmente as coisas não “entravam” em sua cabeça? Simples: as respostas não eram dela. Ela estudava a partir de respostas corretas, mas respostas que não eram dela. Pior, nem as perguntas eram feitas por ela. Guardar informações é muito diferente de produzir informações. Isso é dinâmico. Isso é o que faz um ser humano, com uma capacidade muito inferior a de um computador, no quesito gravar movimentos de xadrez, conseguir derrota-lo. O computador tem quase infinitas possibilidades de combinações de movimentos. Mas seu oponente vê além dos movimentos. É o que neste caso chamamos de “maldade” do jogador.

Gostaria de participar da escola referida por Rubem Alves. Não apenas receber uma versão da informação, apenas visando a média pontual na prova. (quanta evolução!) Gostaria de desenvolver atividades cerebrais, conhecimento genuíno. Existem alguns professores que sabem do que estou falando. Muitos deles, infelizmente estão engessados ao sistema acadêmico onde o conhecimento é escrito com s de $. Felizmente, conheço alguns mentores com os quais posso aprender algo que faça diferença em minha vida e na vida de outros, pois posso também repensar qualquer coisa que possa transmitir conhecimento a outros, ou faze-los alcançar.